Uma pesquisa de mestrado da UFU mapeou 100 espaços públicos voltados às crianças em Uberlândia, analisando como o planejamento urbano considera a infância. A pesquisa, realizada por Samantha Pires Oliveira Freitas Pedrosa e orientada pela professora Eliane Regina Pereira, destaca a importância de incluir as necessidades infantis no desenvolvimento urbano.
O planejamento das cidades considera serviços, mobilidade e necessidades dos cidadãos, mas essas decisões podem representar apenas uma parcela de quem vive no meio urbano. Uma pesquisa de mestrado do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Federal de Uberlândia (PPGPSI/UFU) busca entender como as infâncias são incluídas nos espaços da cidade e realizou o mapeamento de 100 espaços públicos de Uberlândia voltados às crianças. De autoria de Samantha Pires Oliveira Freitas Pedrosa, com orientação da professora Eliane Regina Pereira, do Instituto de Psicologia (IP/UFU), o trabalho parte da discussão de que o ambiente urbano é desenvolvido em torno de quem pode produzir e consumir. “A cidade é planejada a partir de um cidadão padrão, que geralmente é um adulto que trabalha e dirige”, afirma Pedrosa. A orientadora da dissertação explica que isso se apresenta de diferentes formas: “As ruas são desenhadas para o fluxo de carros, pensando nos deslocamentos ao trabalho. As calçadas são estreitas ou inexistentes, com ausência de sombra, de bancos e espaços de permanência”.
Com esse cenário, o dia-a-dia das crianças nas cidades acaba se resumindo à escola e espaços privados. O lado ruim dessa experiência, segundo as pesquisadoras, é a limitação da sociabilidade. “Imaginar-se em outros lugares, em outros contextos, dá a criança a possibilidade de visualizar para si outros mundos possíveis, diferentes rumos de vida. É isso que a gente tira da criança quando mostra que elas só terão esses direitos quando começarem a trabalhar”, explica Pereira. A pesquisa identificou que os locais destinados ao brincar são, em sua maioria, estruturas e brinquedos isolados. Embora sejam públicos e voltados às crianças, esses espaços também podem estar associados ao consumo. “Há equipamentos que são públicos e de gestão pública, e os equipamentos que são públicos, mas a gestão é privada. É nesse sentido que questiono quais infâncias estão de fato incluídas nos espaços de brincar”, destaca a mestra.
O levantamento de Pedrosa classificou os espaços em praças, parques, áreas verdes equipadas e Centros de Artes e Esportes Unificados (CEUs). Os locais foram reunidos em um mapa interativo, que apresenta uma concentração maior de equipamentos infantis nos setores Oeste e Sul de Uberlândia. Dos 100 espaços identificados, apenas quatro estão localizados na zona rural, um em cada distrito: Martinésia, Tapuirama, Cruzeiro dos Peixotos e Miraporanga. Pereira destaca diferenças entre os parques de áreas periféricas e os situados em bairros de classe média, relacionados à infraestrutura e à presença de parcerias com empresas privadas. “O mapa mostra onde encontrá-los, mas também conta onde eles estão ausentes. Ele evidencia como são diferentes e desiguais esses espaços”, afirma. A falta de espaços acessíveis, seguros ou adequados às crianças também pode afetar a forma como elas vivenciam a cidade. “A criança aprende, ainda pequena, que não pertence àquele espaço e isso pode se traduzir em menor senso de pertencimento e de cidadania na vida adulta”, explica Pereira.
A partir de outros estudos sobre o tema, o trabalho aponta para algumas alternativas que fortalecem a relação das cidades com as infâncias. Um exemplo são as ruas de brincar, em que trechos de vias são fechados ao trânsito de veículos em determinados dias ou horários para permitir que crianças transitem e usem os espaços para atividades lúdicas. Essa iniciativa pode ser encontrada em cidades como Jundiaí, em São Paulo, e Juiz de Fora, em Minas Gerais.
Outra possibilidade são os caminhos brincantes, que analisam os trajetos cotidianos, como o percurso entre a casa e a escola, e se preocupam em garantir a segurança dos espaços e a participação das crianças por meio de intervenções lúdicas. Pereira explica: “espaços de brincar não podem ser só o parquinho cercado, precisam estar distribuídos pelo tecido urbano. É preciso que as crianças, os ciclistas, as mulheres, as pessoas com deficiência, os idosos, os bebês em seus carrinhos tenham de fato oportunidades para vivenciar a cidade”.
A dissertação completa estará disponível no Repositório Institucional da UFU a partir de junho de 2028. Em seu doutorado, Pedrosa pretende continuar investigando a relação da cidade com a infância, mas dessa vez por meio de metodologias participativas com crianças.