Pesquisa realizada no Centro de Triagem e Reabilitação de Animais Silvestres (Cetras), em Patos de Minas, revelou que a adoção de um filhote órfão de bugio-preto (Alouatta caraya) por um casal adulto pode contribuir para a conservação da espécie. O estudo, conduzido pela bióloga Izabela de Lima Costa e pela doutora Elisa Queiroz Garcia, é um dos poucos registros científicos desse tipo de comportamento em programas de reabilitação.
Antes da introdução do filhote, o casal foi monitorado por 24 horas com câmeras trap. Em seguida, o filhote passou a conviver gradualmente com os adultos até a permanência definitiva. Nos primeiros dias, houve disputa por espaço, comportamento já esperado pelas pesquisadoras. Com o tempo, os animais passaram a demonstrar cuidados semelhantes aos de uma família.
De acordo com Izabela, o casal aceitou o filhote e apresentou comportamentos compatíveis com uma estrutura familiar natural. Foram registrados os primeiros contatos de aproximação, contato corporal e cuidados parentais que surgiram de forma espontânea. Para a pesquisadora, acompanhar esse comportamento foi um dos aspectos mais marcantes do estudo.
Após o período de reabilitação, o casal e o filhote foram soltos juntos, formando um grupo social estável. A bióloga explica que os bugios vivem em grupos e aprendem habilidades essenciais para a sobrevivência, como encontrar alimentos, reconhecer perigos e se comunicar. Filhotes criados isoladamente podem não desenvolver esses hábitos, reduzindo a expectativa de vida após a soltura.
“Cada indivíduo possui necessidades comportamentais e sociais que precisam ser consideradas para que haja condições reais de retornar à natureza”, afirmou Izabela. A pesquisa pode aumentar as chances de reintrodução de filhotes órfãos, desde que haja acompanhamento durante todo o processo. O conhecimento obtido também poderá servir de referência para protocolos de manejo de outras espécies de primatas em centros de reabilitação, contribuindo para a conservação da fauna silvestre brasileira.