O Ministério Público de Minas Gerais (MPMG) entregou, nesta quinta-feira (6), as obras de reabilitação geotécnica e arquitetônica à comunidade quilombola Manzo Ngunzo Kaiango, em Santa Luzia, na Região Metropolitana de Belo Horizonte. As intervenções incluíram contenção de encostas, reconstrução de edificações e melhorias na infraestrutura local.
Os recursos, de R$ 1,18 milhão, vieram do Programa Minas para Sempre, provenientes de multa aplicada à mineradora Vale como medida compensatória socioambiental. O repasse foi feito pelo Semente, núcleo de projetos socioambientais do MPMG.
O objetivo é preservar um dos mais importantes territórios tradicionais de matriz afro-brasileira de Minas Gerais, reconhecido como patrimônio imaterial pelo município de Belo Horizonte em 2017 e pelo Estado em 2018. A recuperação garante mais segurança e contribui para a preservação da memória e das tradições da comunidade.
O promotor de Justiça Marcelo Maffra, da Coordenadoria do Patrimônio Cultural (CPPC), destacou a importância da obra: “O quilombo Manzo é símbolo de resistência, é um projeto que representa a história de Minas Gerais de uma forma muito significativa. É uma obra com impacto social gigantesco e uma comunidade inteira beneficiada”.
As obras foram executadas pela organização Joaquim Artes e Ofícios, com duração de cerca de dois anos. O diretor presidente, José Theobaldo Jr., explicou que foi necessário respeitar as referências religiosas e ritualísticas da comunidade. “A gente conversou com a Mãe Efigênia e a Makota Cássia sobre os materiais usados, como o reboco, e também sobre o respeito aos rituais, ao que é considerado sagrado para eles”, disse.
Mãe Efigênia, líder da comunidade, emocionou-se ao receber o local renovado: “Isso hoje para mim é uma glória. Eu nunca pensei na minha vida chegar e passar a mão numa casa rebocada, porque a minha casa era de madeira. Tô muito feliz, gente. Eu não tô acreditando”.
Makota Célia, filha mais velha de Mãe Efigênia, afirmou que as obras são uma reparação histórica: “Nós somos a ressignificação da memória ancestral. O Estado precisa ser laico pra permitir que a gente possa rezar”. Já Makota Cássia pretende abrir o espaço para promover letramento racial e educação patrimonial.