Após a morte do pai, Carlos Guilherme Quito, de 41 anos, assumiu o legado de afinador e restaurador de pianos em Itajubá (MG), dando continuidade a uma tradição familiar que já atravessa cinco gerações. Seu pai, Carlos Quito, morreu aos 91 anos em 24 de maio, após uma rápida piora provocada por metástases cerebrais, deixando um ofício que começou há mais de sete décadas e que agora passa para a sexta geração com o neto Diogo, de 22 anos.
Há coisas que um pai ensina sem precisar dar uma aula. Às vezes, estão nas palavras. Outras, no jeito de trabalhar, de tratar as pessoas ou até de segurar uma ferramenta. Para Carlos Guilherme Quito, de Itajubá (MG), algumas das maiores lições deixadas pelo pai estão guardadas dentro de uma maleta.
São as ferramentas que acompanharam Carlos Quito durante décadas de trabalho como técnico, afinador e restaurador de pianos. Algumas têm mais de 200 anos. Alicates e chaves carregam as marcas do uso e, para a família, nunca foram apenas instrumentos de trabalho.
Pai e filho dividiram o nome, a oficina e o trabalho de preservar pianos que carregavam histórias de família — Foto: Arquivo pessoal
Carlos Quito morreu aos 91 anos, em 24 de maio deste ano, após uma rápida piora provocada por metástases cerebrais. Até pouco tempo antes, mesmo durante o tratamento contra o câncer, continuava viajando pelo país e trabalhando.
Foram mais de sete décadas dedicadas aos pianos e a uma profissão que já atravessava gerações da família. Carlos era a quarta geração de técnicos ligados ao universo dos instrumentos. O filho, Carlos Guilherme, de 41 anos, tornou-se a quinta. Agora, o neto Diogo Quito, de 22, se prepara para ser a sexta.
A trajetória de Carlos Quito passou por teatros, universidades, conservatórios, igrejas, centros culturais e casas de clientes em diferentes partes do Brasil. Ele também trabalhou no departamento de música da Universidade de São Paulo (USP) e teve contato com instrumentos usados por grandes nomes da música, como Arthur Moreira Lima, Nelson Freire, Tom Jobim, João Donato, Wagner Tiso, Egberto Gismonti, Milton Nascimento e Elis Regina.
Entre os trabalhos que marcaram a trajetória da família está a restauração de um piano Blüthner Leipzig, de 1889, que pertencia ao antigo Auditório Mozart Music Hall, da Faculdade Ibero-Americana.
Carlos Quito foi a quarta geração da família a trabalhar com pianos e deixou o ofício para o filho, Carlos Guilherme — Foto: Arquivo pessoal
Mas, segundo o filho, para quem conviveu com Carlos, talvez a maior marca não esteja em nenhum currículo.
A relação com os clientes era uma extensão da maneira como Carlos enxergava a própria profissão. Para ele, o piano não era apenas um objeto que precisava voltar a funcionar. Era parte da história de uma família.
Por isso, uma restauração podia durar dias. Enquanto alguns serviços poderiam ser concluídos em poucas horas, Carlos permanecia três, quatro, cinco dias na casa de um cliente, dependendo das condições do instrumento e do trabalho necessário.
Foi observando esse trabalho que Carlos Guilherme começou a construir a própria relação com a profissão.
Aos 91 anos, Carlos Quito ainda trabalhava e viajava pelo Brasil para atender clientes e restaurar pianos — Foto: Arquivo pessoal
Apesar de ter crescido em meio aos pianos, Carlos Guilherme não seguiu o caminho do pai por obrigação. Desde pequeno, frequentava a oficina, estudava o instrumento, participava de recitais e convivia diariamente com aquele universo.
“Piano é nossa vida mesmo. Em todo sentido. É café da manhã, almoço e janto, piano”, conta.
Ainda assim, por um período, o filho construiu outra carreira. Carlos Guilherme estava no Exército, onde se preparava para fazer o curso de sargento, quando decidiu deixar a profissão. O chamado para continuar o trabalho do pai falou mais alto.
Carlos Guilherme mantém o trabalho que aprendeu com o pai, Carlos Quito, e prepara o filho para a sexta geração da família na profissão — Foto: Arquivo pessoal
A escolha não nasceu apenas da tradição. Carlos Guilherme desenvolveu uma paixão própria pelo ofício e, principalmente, pela restauração.
“Eu gostava de ver aquilo que era, entre aspas, velho, que estava deteriorado pelo tempo e tudo mais, voltar à vida.”
O pai percebeu o talento do filho. Segundo Carlos Guilherme, chegou a dizer que ele havia alcançado um nível de restauração que o próprio Carlos Quito nunca tinha feito da mesma maneira, especialmente em trabalhos de pintura e recuperação dos instrumentos.
A profissão, então, deixou de ser apenas uma herança e se tornou uma escolha.
Um piano pode ter cerca de 12 mil peças trabalhando em harmonia para produzir um único som. A complexidade do instrumento ajuda a explicar por que o trabalho exige paciência, precisão e cuidado. Mas, para Carlos Quito, havia respeito pela história de cada piano, algo ainda mais importante.
Havia uma pergunta que, para ele, valia mais do que o preço de mercado do piano: aquele instrumento tinha história? Se tinha, valia a pena restaurar.
Um piano pode sobreviver ao dono. Pode passar de uma casa para outra, de uma geração para outra. Pode permanecer décadas fechado e, um dia, voltar a produzir som pelas mãos de alguém. Restaurá-lo, para Carlos Quito, era também devolver à família um pedaço do passado.
Carlos Quito costumava restaurar instrumentos mesmo quando o custo do serviço superava o valor comercial do piano — Foto: Arquivo pessoal
Essa forma de trabalhar também aproximava Carlos das pessoas. O filho conta que o pai era capaz de chegar à casa de um cliente como profissional e sair de lá como amigo. Mesmo depois da morte, as lembranças continuaram chegando.
Para Carlos Guilherme, o pai foi muito além do profissional que afinava e restaurava instrumentos.
A morte de Carlos Quito interrompeu uma rotina que parecia não ter fim. Até pouco tempo antes, ele ainda viajava, atendia clientes e trabalhava.
Para o filho, o impacto foi ainda maior porque os dois não eram apenas pai e filho. Eram companheiros de profissão, amigos e confidentes.
Depois da morte, Carlos Guilherme conta que não conseguia trabalhar. Olhava para os pianos da oficina e chorava. Precisou se afastar por alguns dias antes de conseguir voltar.
Ao mesmo tempo em que lidava com a ausência, havia uma oficina cheia, trabalhos atrasados, clientes esperando, viagens para fazer e uma mãe para cuidar. A vida precisava continuar. E continuou justamente pelo caminho que o pai havia construído.
Ferramentas de Carlos Quito continuam sendo usadas pelo filho nos trabalhos de afinação e restauração — Foto: Arquivo pessoal
Hoje, cerca de 80% das ferramentas usadas por Carlos Guilherme ainda são de Carlos Quito. A maleta que acompanhou o pai durante décadas continua aberta.
Carlos conta que o pai tinha um cuidado especial com ela. Quando viajava, as ferramentas tinham lugar garantido. Se fosse de ônibus, as roupas ficavam embaixo e a maleta seguia protegida. Quando voltava para casa, as ferramentas precisavam ser guardadas.
A dor ainda é recente. Carlos Guilherme admite que chora todos os dias. Há lembranças que ainda são difíceis de tocar. Abrir uma mala que pertenceu ao pai, por exemplo, pode significar passar o resto do dia chorando. No entanto, no trabalho existe uma maneira de continuar conversando com ele.
A história poderia terminar na quinta geração. Mas, antes de morrer, Carlos Quito já via no neto a possibilidade de continuar o ofício.
Diogo Quito, de 22 anos, acompanhava de perto aquele universo e queria aprender a tocar piano e conhecer a profissão do avô. Carlos Quito também queria ensinar. Tentava encontrar espaço na agenda entre viagens e trabalhos, mas o tempo não foi suficiente.
Foi no velório do avô que Carlos Guilherme ouviu do filho uma promessa que não esqueceu.
Diogo Quito, filho de Carlos Guilherme e neto de Carlos Quito, decidiu deixar o Exército para aprender o ofício do pai e do avô — Foto: Arquivo pessoal
Diogo decidiu deixar o Exército e seguir com o pai o caminho que Carlos Quito havia percorrido por décadas. Agora, são pai e filho novamente dentro da oficina. E, assim, a sexta geração começa a ser construída.
Carlos Guilherme admite que ainda precisa aprender a ensinar. Apesar dos anos de experiência ao lado do pai, diz ter dificuldade para transmitir tudo o que sabe.
Talvez porque, nesse caso, ensinar não seja ap