Canais e reservatórios de irrigação têm causado a morte de animais silvestres nas proximidades do Parque Nacional Grande Sertão Veredas, uma das principais áreas de Cerrado do Brasil. Sem estruturas adequadas para fuga, espécies como lobo-guará, anta, capivara, cutia e gato-palheiro frequentemente morrem afogadas ao caírem nesses sistemas.
O tema é abordado no estudo “Infraestrutura de Irrigação na Região do Parque Nacional Grande Sertão Veredas: É Possível Conciliar Produção e Conservação da Biodiversidade”, publicado pela Fundação Pró-Natureza (Funatura). A pesquisa mapeou 1.476 pivôs centrais, 131 reservatórios e 504 quilômetros de canais de irrigação na região da Trijunção, que abrange Minas Gerais, Bahia e Goiás.
Os dados revelam que quase 50% dessa infraestrutura está localizada nas proximidades do Parque Nacional, uma área crucial para a conservação do Cerrado e do Aquífero Urucuia. Os pesquisadores alertam que os canais e reservatórios, com geomembranas lisas e margens íngremes, atuam como armadilhas para a fauna, resultando em afogamentos de diversas espécies, incluindo aquelas ameaçadas de extinção.
A pesquisa destaca a presença de 36 espécies de mamíferos terrestres de médio e grande porte na região, sendo 17 delas listadas como ameaçadas. A perda de indivíduos pode impactar negativamente as populações, uma vez que muitos desses animais vivem em densidades baixas e necessitam de grandes áreas para sua sobrevivência.
O estudo sugere soluções já implementadas em outros países, como a instalação de rampas de escape, passagens de fauna, cercas-guia e a adequação das bordas dos reservatórios. Além disso, recomenda a substituição de canais abertos por tubulações subterrâneas sempre que possível. Os pesquisadores defendem que essas medidas sejam incorporadas aos processos de licenciamento ambiental como requisitos para projetos de irrigação em áreas ecologicamente sensíveis.
Conforme o estudo, a combinação entre produção agrícola e conservação da biodiversidade é não apenas viável, mas essencial para a sustentabilidade dos recursos naturais que sustentam a agropecuária.