Uma pesquisa internacional com participação da Universidade Federal de Uberlândia (UFU) pode colocar a lua Kallichore, de Júpiter, na rota da missão Juice, da Agência Espacial Europeia (ESA). O estudo, publicado na revista Nature Astronomy, mapeou a órbita do satélite com precisão inédita, reduzindo a incerteza em mais de 80% e viabilizando um sobrevoo que seria inédito.
Kallichore é uma lua irregular, com apenas 3,8 quilômetros de diâmetro, e orbita Júpiter em sentido contrário à rotação do planeta. Por ser muito pequena e escura, refletindo apenas 3,7% da luz solar, é difícil de ser observada da Terra. Até o estudo, havia cerca de 50 observações do satélite desde sua descoberta em 2003, o que tornava sua órbita incerta, com margem de erro de mais de 1.500 quilômetros para 2031.
Para reduzir essa incerteza, a equipe liderada pelo astrofísico Juan Luis Rizos, do Instituto de Astrofísica da Andaluzia, na Espanha, usou a técnica de ocultação estelar, que cronometra o breve bloqueio da luz de uma estrela distante quando o satélite passa à sua frente. As observações foram feitas com o Telescópio Espacial Hubble e o Gran Telescopio Canarias, e depois com uma campanha internacional de observadores profissionais e amadores em vários países.
A UFU participou por sua experiência em dinâmica orbital, desenvolvendo softwares para prever ocultações e refinar a órbita. A pesquisadora Evelyn Prais, mestranda em Física, explica que esses satélites são “verdadeiros fósseis espaciais” e que estudá-los ajuda a compreender a formação do Sistema Solar. O professor Altair Gomes Junior, do Instituto de Física, destaca que as observações do Hubble reduziram a incerteza da sombra para cerca de 30 quilômetros, quase 10 vezes o tamanho do satélite.
A decisão final sobre incluir Kallichore no roteiro da missão Juice será tomada pela ESA até 2028. A pesquisa favorece a inclusão, mas ainda há variáveis operacionais a serem avaliadas. Para Prais, o trabalho demonstra a importância do investimento em ciência no Brasil: “Pesquisadores de universidades públicas brasileiras podem contribuir ativamente para pesquisas internacionais de grande relevância”.