Teve início nessa quarta-feira (26/8) o IV Simpósio sobre Feminicídios: Memórias, Pactos e Ações contra o Feminicídio, no auditório do Bloco 5 do campus Santa Mônica da UFU. O evento reúne pesquisadores, estudantes, gestores, movimentos sociais e ativistas para discutir prevenção e enfrentamento ao feminicídio, com programação até sexta-feira (28/8).
Realizado durante o Agosto Lilás, mês dedicado à conscientização e ao enfrentamento da violência contra a mulher, o simpósio amplia as discussões sobre o tema, ao aproximar a produção acadêmica das demandas da sociedade. Para a coordenadora do Laboratório de Estudos de Feminicídios (Lesfem), Silvana Mariano, da Universidade Estadual de Londrina (UEL), o encontro é uma oportunidade de reunir diferentes setores, na busca por respostas ao problema. “É um momento de articular pesquisadores, estudantes, gestoras, movimentos sociais, ativistas, para coordenarmos esses esforços de compreender e explicar o feminicídio e também pensar em respostas para esse problema”, afirma.
Mariano também destaca o papel das universidades na mediação desse debate, contribuindo para a produção de conhecimento, a ampliação da visibilidade das pesquisas e a construção de estratégias de enfrentamento à violência contra as mulheres.
A programação de abertura contou com apresentação cultural da artista Adriana Francisco, que interpretou a canção “Maria da Vila Matilde”, de Elza Soares, seguida por uma mesa de abertura com representantes das principais entidades envolvidas no simpósio. Ao longo da programação, o encontro também destaca pesquisas e iniciativas voltadas à compreensão do feminicídio e à formulação de políticas públicas capazes de prevenir e combater esse tipo de violência.
Uma das iniciativas do Laboratório de Estudos de Feminicídios (Lesfem) é o Mapa de Feminicídios do Brasil. Criado em 2022, a partir da articulação entre pesquisadores da Universidade Estadual de Londrina (UEL), da Universidade Federal da Bahia (UFBA) e da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), que é força motora para a realização do simpósio.
O projeto reúne e analisa dados sobre feminicídios consumados e tentados em diferentes regiões do país, com o objetivo de contribuir para o monitoramento e a visibilização do fenômeno. A iniciativa também busca colaborar para o aprimoramento das estatísticas oficiais e para o fortalecimento das respostas do Estado e da sociedade à violência contra mulheres e meninas.
As pesquisas desenvolvidas pelo Lesfem consideram três pilares fundamentais no enfrentamento à violência de gênero: prevenção, punição e restituição de direitos.
A professora da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), organizadora do Simpósio e integrante do Laboratório de Estudos de Feminicídios (LESFEM), Débora Pastana, destaca a importância da produção de pesquisas e dados para o enfrentamento da violência contra as mulheres. “O laboratório é uma ferramenta muito importante pra gente fiscalizar, pra gente produzir dados, pra gente cobrar políticas públicas. A universidade também tem um papel central no enfrentamento do feminicídio.”
Como parte desse trabalho, o laboratório mantém um mapa de monitoramento dos casos de feminicídio registrados no Brasil. A ferramenta permite acompanhar a distribuição dos casos e ampliar o acesso a informações sobre a violência contra as mulheres no país.
Professora do Departamento de História da Universidade Estadual de Montes Claros (Unimontes), Claúdia de Jesus Maia é líder do Grupo de Pesquisa Gênero e Violência (GPEG), coordenadora do Observatório Norte-Mineiro de Violência de Gênero e da Rede Mineira de Estudos Avançados em Desigualdades, Violências de Gênero e suas Interseccionalidades. Pesquisadora das relações entre gênero, violência, poder e desigualdades, Cláudia foi a convidada para ministrar a conferência de abertura do simpósio, com a mesa “O corpo-território das mulheres nas novas formas de guerra: feminicídio, biopolítica e colonialidade”.
Na conferência, a pesquisadora discutiu como o corpo das mulheres se torna território de disputas de poder e violência, articulando o feminicídio às estruturas de biopolítica e colonialidade. A partir dessas relações, Claúdia também refletiu sobre as novas formas de guerra e sobre como as violências de gênero são atravessadas por diferentes marcadores sociais e históricos. Nesta entrevista, ela aprofunda essas questões e debate os mecanismos que transformam os corpos femininos em espaços de controle, disputa e resistência.
Comunica: Na sua palestra você revelou muito sobre a colonialidade. Pra você quais as marcas da estrutura colonial, que ainda aparecem na maneira como que o Estado, a Justiça e a sociedade respondem ao feminicídio?
Cláudia Maia: São várias, né? Quando a gente pensa que essa estrutura patriarcal que é reforçada com a colonialidade, as autoras tem chamado atenção, em especial a Rita Laura Segato, que existia um patriarcado, mas ele era de baixa intensidade, ou seja, as relações de gênero não eram suplementares, elas eram complementares. A noção de homem e de mulher, né, e uma relação de poder entre homens e mulheres existia, mas não era intensificada. A colonialidade intensifica isso. Então, esse patriarcado que toma o corpo da mulher como uma propriedade tem sido um dos principais motivos do feminicídio. Para muitos homens, a única forma de demonstrar poder, principalmente demonstrar poder publicamente tem sido por meio do corpo feminino, seja através do estupro, da violência sexual, da violência doméstica e principalmente através do feminicídio. Esse corpo é transformado numa espécie de território onde ele pode exercer o poder. Isso é completamente uma herança da colonialidade.
Comunica: Esse conceito de corpo território que você comenta, ajuda a gente a compreender o feminicídio não só pela análise criminal, esse fenômeno é muito mais complexo. Como você enxerga esse corpo território, nesses casos de feminicídio?
Cláudia Maia: Hoje a gente tem duas perspectivas de pensar o corpo enquanto território. Então, uma das perspectivas tem sido produzido pelos feminismos indígenas que têm defendido a noção de corpo território aliado a uma perspectiva do território cultural, simbólico, ancestral. Então, matar um corpo significa matar toda essa perspectiva ancestral e cultural. Mas, mais do que isso, para elas não existe autonomia das mulheres se não existe a posse do território físico, né? Porque uma das principais lutas das mulheres indígenas é justamente pela posse do território. Então, quando elas estão falando de um corpo território, é em uma outra perspectiva, não da propriedade privada, né? Não da posse, mas de pensar que é um problema coletivo. Cuidar do território físico significa cuidar também da mulher, da vida e assim por diante. Já na perspectiva que eu trabalho, é justamente um corpo como esse espaço de disputa, de relação de poder. Dentro da lógica de pensar o poder seguindo a analítica do poder do Foucault, ele vai dizer, que o poder soberano, o poder que decide quem vive e quem morre, ele se exerce sobre um território. E ele tá falando um território físico, evidentemente. Mas nós pensamos isso dentro de uma perspectiva biopolítica. Que esse território, ele é constituído socialmente. Então, o território, ele pode ser esse espaço físico, mas ele pode ser também esse espaço simbólico que é o corpo da mulher.
Comunica: E depois de todos esses anos estudando o feminicídio. Existe algo que ainda te surpreende nessas dinâmicas de violência?
Cláudia Maia: Muitas coisas me surpreendem. Não dá para se acostumar nunca com a crueldade das mortes. Então, cada morte me surpreende, porque cada uma delas tem sido mais perversa e mais cruel. A gente acha que viu tudo, mas não viu. E quando você ouve as histórias das mulheres, você pensa assim, que é inacreditável. Porque c